quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Perspectivismo

Tirei uma foto com os seus óculos
Poderia eu dizer que um dia
Eu pude olhar o mundo através dos seus olhos?
Isso é o que os antropólogos quase chamam de perspectivismo
E eu na verdade mal sei sobre essas coisas
Só ouço falar.
Fico tentando ver o mundo pelos olhos dos outros,
Quem são esses outros?
O que há de outro em mim?
E no outro, há algo de mim?
Mas se eu apenas colocesse os seus óculos
E assim em um piscar de olhos
Eu pudesse enxergar o mundo
O que então eu enxergaria?
De certo, seria um mundo tão colorido
Repleto de sentido.
Dizem que é possível perceber Deus
Através da maneira como alguém interpreta o mundo.
E olhando através de seus olhos, diria eu:
Que Belo Deus tens então!

sábado, 25 de setembro de 2010

Projetar um projeto,
Projetar-se no projeto,
Projeto de si,
Projeção de si.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Pensar é a fardo que o homem carrega. Queria ele poder interromper qualquer vil pensamento, mas cansado ele desiste. Não consegue. O pensamento vai além das forças humanas. Pode-se estar amarrado, mas não é possível contê-lo. Ele vai para longe, a lugares inóspitos e até inimagináveis. Basta pensar em um lugar que não existe que em um piscar de olhos, ele passa a existir no imaginário do humano que o criou.
E não é somente. O homem se une ao extrafísico também através do pensamento. É ele o veículo que os humanos e terráqueos utilizam, sem perceber, para comandar o Universo. Qualquer existência que habita esse planeta impulsiona o Universo e ele responde de igual maneira, mas em sentido oposto. Daí então o porquê de muitos sábios dizerem que o homem depende de seu pensamento.
Se uma grande maioria da humanidade passasse a impulsionar o Universo de forma positiva, que grande mundo surgiria? - E então, quem sabe entender-se-ia melhor Deus ao invés de buscar sua essência criadora em um patético acelerador de partículas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Se as fotografias tivessem som

Ah se as fotografias tivessem som, eu de certo viajaria no tempo e rememoraria cada instante da infância - que já não é mais récem-acabada. É engraçado como a nossa própria mente ilude a nós mesmos: não me lembro mais dos fatos como antes. Parece que a cada novo ano que se chega, mês ou ainda a cada novo dia que se inicia, parece que vou perdendo um pouco das lembranças do meu passado - até mesmo aquele que era o mais roteneiro de todos, como acordar para ir à escolinha e chorar no portão da entrada implorando à mãe para que não me abandonasse. O que havia ali que tanto me amedrontava? - Não sei, eu já não me lembro mais.
E assim vivo a vida. A cada novo dia um a menos para se recordar. Cada pessoa que se chega, é porque uma teve que partir. E ela não parte por assim desejar, na verdade ela sequer percebe que se foi. Os dias correm tão depressa como as vidas das pessoas, e com o passar das semanas e posteriormente alguns meses, e quando se dá conta: onde está aquele alguém que me era tão importante? - Ele já não está mais ali, cotidianamente como antes. E nisso, vem aquela pontada de saudade seguida de uma angústia, assim tão humana... e então procuramos nos recordar dos momentos vividos ao lado de pessoas incríveis, provocando o nosso vil cerébro e o obrigando a se lembrar de fragmentos históricos que fazem parte da nossa vida.
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Hellen da Fonseca 15/07/2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Letra de menino

Entre muitos papéis que habitam a minha agenda, encontrei o nome dele escrito. A letra não era a minha, não havia excessos, volteios ou enfeites como manda o estereótipo feminino. Lembrei-me então daquele dia quando o abordei para pedir o telefone. Era um assunto qualquer. Aniversário de amigo. Por que não convidá-lo? Ótimo pretexto. E foi o que fiz.
Sem opção, ele escreveu num pedaço de papel que eu mesma arrancara da minha agenda. Como dói pensar em arrancar as folhas! - Mas como era para ele, ah... não me custou nada, do contrário, foi um prazer. E quando ele escreveu, guardei carinhosamente e até me esqueci do papel. Ficou morando no interior de minha agenda durante alguns meses. E enquanto isso, nossas vidas transcorriam normalmente. Não foi preciso nenhum pedaço de papel para nos aproximarmos - nos encarregamos de fazer isso espontâneamente. Foi como fechar os olhos e sonhar acordada. Quando abri, já estávamos nos beijando.
E ainda confesso que esse precioso pedacinho de papel ficou perdido entre minhas inúmeras anotações, até que hoje finalmente o encontrei. Apareceu enquanto eu folheava as páginas, rememorando a vida de frente pra trás. E aquele papelzinho... tão singelo e tão especial. Onde tudo começou.
De tão boba, comecei a reparar em todos os trejeitos e em todos os elementos que compõem aquela obra prima. A letra é de menino mesmo, de forma, simples. O número oito não é desenhado como o do infinito. É somente uma bolinha com outra menor em cima. Tampouco, não é menos bonita - mas dá pra ver que é de menino.
O que será que ele pensava de mim quando me entregou esse papel? Será que consigo enxergar nos traços os mistérios de sua Alma? - A psicologia inventou uma técnica perspicaz que muito diz acerca da personalidade Humana quando se analisa a caligrafia. O que diriam sobre ele?
Talvez ele não pensasse em nada, como um ingênuo que não percebeu as minhas intenções de mulher. Ou percebendo-as, se fez de bobo p'ra pensar que fui eu quem o conquistei. Não sei, são cogitações. Somente aquela Alma Humana, que hoje chamo de Amor, pode esclarecer as minhas dúvidas. Mas confesso que ainda não quero deixar de tê-las, não é preciso trazer tudo à luz. Reserva um pouco para a curiosidade, que daí também se faz crescer o amor - é o que me diz a minha vil consciência.
E agora mesmo, olhando para esse pequeno pedaço de papel, sinto saudades dele.
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Hellen Fonseca 07/07/2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

É noite ensolarada pela lua cheia
No planeta dos terráqueos
Ou na terra dos humanos.
E todos eles, salvo exceções
Seguem suas vidas sistematicamente
E nem sequer percebem
Que a perfeição se encontra ali
Bem em cima de suas cabeças.
*
Há alguns humanos em crise
Reconstruindo a si mesmos
Num processo dialético profundo
E incessante
Inquebrantável
Legítimo
Inexorável.
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São tantos conceitos tão humanos
Que é preferível
Desligar o botão do racionalismo
E entoar um mantra
Ou ligar uma música qualquer.
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Hellen Fonseca - (28-05-2010)

sábado, 1 de maio de 2010

O Capitão do Mar

Do alto da ribanceira
Vi passar um barco
Guiado por um jovem
Cujo olhar fitava o horizonte.
Ele passava tão determinado
Que sequer notou
A dama que estava
No alto da ribanceira
Acenando-lhe com um lenço.
*
E ele seguiu viagem,
Cujo destino é o desconhecido
Talvez nem ele mesmo saiba
Em que águas desembarcará,
Se irá p'ra outro mundo
Para as Terras do Sem Fim.
Não sei,
Só sei que ele não para.
Não cessa um instante sequer
Rema contra a correnteza,
Deixa o suor escorrer pelo corpo
Mas nem por isso para de remar.
*
E assim ele se foi
Até sumir das vistas
De qualquer ser vivente.
Nem da mais alta ribanceira
Era possível enxergá-lo.
-Agora ele já está longe,
Cruzando os Hemisférios
E as linhas imaginárias
Da mente humana,
Dizia a dama para si mesma.
*
E ela, sem muito o que fazer
Usou o lenço p'ra secar as lágrimas
Deu as costas para o rio
E nunca mais olhou para ele.
Seguiu sua vida normalmente,
Sobreviveu às chuvas de granizo,
Aos ventos da tempestade,
E às longas madrugadas frias.
Tampouco, não deixou de amá-lo.
*
E um dia ele voltará
Ah, ela sabe que voltará
Por mais que lhe digam que não.
Quando se escolhe amar
Um homem do mar
Renunciada é a companhia
Os momentos de espera
São quase eternos,
E a paciência feminina
É a melhor das virtudes.
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Hellen Fonseca 02/05/2010